Pós-venda do tráfico dá ‘brinde’ a comprador insatisfeito

O tráfico de entorpecentes se organiza em Limeira, no interior de São Paulo, até com um serviço de pós-venda ao comprador. Apuração da Polícia Civil, por meio da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), mostra que, quando o comprador fica insatisfeito, ele recebe um “brinde”: ou seja, droga a mais como compensação.

As informações constam em relatório que embasou a denúncia que o Ministério Público (MP) ofereceu contra um casal em janeiro deste ano. A Justiça aguarda a apresentação de resposta à acusação da mulher para analisar se abre ou não a ação penal.

O trabalho de inteligência da polícia indicou que o casal fazia transporte de drogas por meio de um Polo. Assim, agentes passaram a monitorar o carro, que tinha uma rotina de deslocamento. Logo pela manhã, o veículo seguiu até Piracicaba e retornava uma hora depois. As drogas pertenceriam ao Primeiro Comando da Capital (PCC).

Porção de maconha

No dia 9 de fevereiro de 2024, o casal foi detido na Rodovia Deputado Laércio Corte (SP-147/Limeira-Piracicaba), nas imediações do Jd. Santa Adélia. Com ela, havia uma porção de maconha, o que a levou à prisão. A partir disso, a polícia aprofundou a investigação sobre o casal, o que resultou na denúncia da promotora Marianna Fazoli Rodrigues de Azevedo.

A acusada – T.C.C.S. – era a responsável por receber os pedidos dos compradores e os encaminhava ao homem – R.M. – por meio do WhatsApp. Com o pedido, ele separava as porções e entregava à companheira, que fazia o repasse. Em contraprestação, os compradores enviaram o pagamento via PIX à conta de empresário individual que tem R. como titular.

Conforme a denúncia, essa conta bancária de pessoa jurídica disfarçava a atividade ilícita. A mulher controlava a contabilidade das vendas de drogas, conforme indicaram fotografias que a polícia localizou em seu celular. Por sua vez, o homem manuseava fotos e vídeos de drogas e armas, para demonstrar a qualidade das substâncias. O negócio girava em torno de R$ 55,8 mil, conforme a apuração policial.

Brinde aos insatisfeitos

O relatório apontou que a mulher repassava a R. a opinião dos clientes numa espécie de “pós-venda” das drogas. Eram reclamações sobre quantidade de entorpecentes. Em compensação, o homem enviava um “brinde”.

Em um diálogo, T. escreveu: “ela tá esperando o brinde”. R. respondeu, explicando o possível problema com a droga: “às vezes, por causa do pedaço, parece que é pequeno, mas ela é mais ‘moiada’, fica mais pesada, entendeu [?], e o brinde, assim que chegar, eu mando pra ela”.

O MP denunciou o casal por tráfico de entorpecentes. T. segue presa, mas ainda não apresentou resposta à acusação.

Já a defesa de R. impetrou habeas corpus no Tribunal de Justiça de São Paulo (TJSP), com pedido de revogação do decreto de prisão preventiva. No dia 7 de março, a 4ª Câmara de Direito Criminal denegou a ordem, por unanimidade, a partir do voto do relator, desembargador Edison Brandão.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Rafael Sereno é jornalista, escreve para o Diário de Justiça e integra a equipe do podcast “Entendi Direito”. Formado em jornalismo e direito, atuou em jornal diário e prestou serviços de comunicação em assessoria, textos para revistas e produção de conteúdo para redes sociais.

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