por Thomaz Almeida
História
A Ponte do Esqueleto, localizada entre Limeira e Cordeirópolis, é uma das estruturas ferroviárias abandonadas mais conhecidas da região. Sua origem está associada à expansão da infraestrutura ferroviária paulista, quando a construção de pontes, viadutos e ramais buscava ampliar a integração econômica regional e atender às demandas de transporte da produção agrícola. Embora a documentação histórica disponível seja limitada, sabe-se que o projeto ferroviário não entrou em operação e foi posteriormente abandonado.
Ao longo dos anos, a perda de sua função original favoreceu um processo de ressignificação do local. A ponte passou a atrair visitantes interessados em atividades recreativas. A estrutura tornou-se ponto de encontro para ciclistas, caminhantes, fotógrafos e praticantes de esportes de aventura, especialmente o bungee jump. Essa popularização ocorreu de forma orgânica, sem que houvesse um processo formal de adaptação da infraestrutura para uso turístico ou recreativo.
É possível verificar que os lugares não possuem significados permanentes; eles são continuamente reinterpretados pelos grupos que os utilizam. Quando uma infraestrutura perde sua função inicial, ela não necessariamente desaparece da dinâmica territorial. Pelo contrário, pode ser incorporada a novas práticas e adquirir novos valores. Foi exatamente o que ocorreu com a Ponte do Esqueleto. A ponte deixou de ser apenas um vestígio do passado e passou a integrar o cotidiano e o imaginário coletivo da população regional.
Conflitos
Nos últimos anos, a Ponte do Esqueleto ganhou destaque na imprensa regional e nacional em razão de acidentes graves e mortes ocorridas no local. Neste sábado (13), após a morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, de 21 anos, a Ponte do Esqueleto voltou a ocupar o noticiário nacional. Segundo as informações divulgadas pela imprensa, a jovem foi lançada da estrutura sem estar devidamente conectada ao sistema principal de segurança.
De quem é a culpa?
Os eventos recentes evidenciam diversas falhas. A ocorrência de acidentes fatais, a realização de atividades de risco sem monitoramento adequado e as disputas acerca da responsabilidade pela área revelam um cenário caracterizado pela ausência de regras compartilhadas e reconhecidas pelos diferentes atores envolvidos. Mas quem deve ser responsabilizado pelas tragédias ocorridas no local? A resposta imediata frequentemente irá cair sobre indivíduos, empresas ou órgãos públicos, mas a Teoria dos Bens Comuns desenvolvida pela economista Elinor Ostrom (1933-2012) – a primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel de Economia – sugere uma interpretação mais complexa.
Para Elinor, problemas associados ao uso coletivo de um recurso raramente resultam da ação isolada de um único ator; eles são, sobretudo, consequência de falhas institucionais na governança compartilhada.
No caso da Ponte do Esqueleto, o principal problema é que a responsabilidade sobre sua gestão permanece difusa. União, Estado, municípios, operadores de atividades recreativas e usuários compartilham, em diferentes graus, interesses e influência sobre o local, mas sem um arranjo institucional consolidado que estabeleça direitos, deveres e mecanismos de fiscalização.
Sob a perspectiva de Ostrom, a principal causa das mortes não deve ser atribuída exclusivamente a um ator específico, mas à ausência de um sistema eficaz de governança. Um dos princípios fundamentais identificados pela por Ostrom é a necessidade de limites claramente definidos. No caso da Ponte do Esqueleto, há recorrentes controvérsias sobre quem é responsável pela manutenção, pela segurança e pelo controle do acesso. Essa indefinição institucional dificulta a implementação de medidas preventivas.
Outro princípio central é o monitoramento. Ostrom demonstrou que recursos compartilhados tendem a ser mais seguros e sustentáveis quando existe supervisão contínua dos usos realizados. A ausência de fiscalização permanente na ponte permite que atividades potencialmente perigosas ocorram sem controle adequado, ampliando os riscos para os frequentadores. Da mesma forma, a inexistência de regras formalmente reconhecidas para a realização de esportes de aventura ou para a circulação de visitantes contribui para a vulnerabilidade do local.
Isso não significa que os usuários individuais estejam isentos de responsabilidade. Ostrom reconhece que a qualidade de um recurso comum depende do comprometimento coletivo com regras compartilhadas. Entretanto, quando tais regras não existem ou não são legitimadas institucionalmente, torna-se difícil exigir comportamentos uniformes dos usuários. A responsabilidade passa, então, a ser distribuída entre todos os atores envolvidos no sistema de governança.
Dessa forma, a concepção de bens comuns de Ostrom sugere que a pergunta “de quem é a culpa?” talvez seja inadequada para compreender a complexidade da Ponte do Esqueleto. Será que as autoridades (municipais, estaduais e federais) reconhecem a falha coletiva de governança? As tragédias observadas refletem a ausência de coordenação entre os diferentes atores responsáveis pela gestão do espaço. Sob essa perspectiva, a solução não reside apenas na punição pelas mortes – que evidentemente devem ocorrer – mas na construção de regras claras, mecanismos de monitoramento e responsabilidades compartilhadas, reduzindo os riscos associados ao uso coletivo do local.
Thomaz Almeida é limerense e trabalha com planejamento territorial e geoprocessamento há 15 anos, atuando em pesquisa acadêmica e gestão pública.
Foto: Divulgação
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