Por Farid Zaine
@farid.cultura
É redundância repetir que Steven Spielberg é um dos maiores diretores do cinema de todos os tempos. Entretanto, a cada novo filme do diretor, sua biografia volta a ser lembrada e sua inestimável contribuição à sétima arte é atualizada. Com “Os Fabelmans”, o próprio Spielberg revisita sua história, como se, aos 76 anos, faltasse a ele nos dar a oportunidade de entrarmos em suas memórias mais íntimas. Em “Os Fabelmans”, Steven Spielberg cria uma família fictícia para falar de sua própria família, sua infância, sua adolescência e a descoberta de sua paixão pelo cinema.
Quando vemos, nas primeiras cenas do longa, o menino de olhos azuis assustados diante de sua primeira experiência de assistir a um filme, é ao nascimento do grande diretor que estamos assistindo. Os pais de Sam Fabelman, que é o próprio Spielberg, levam-no para ver uma sessão de “O Maior Espetáculo da Terra”, do diretor Cecil B.de Mille, criador do célebre “Os Dez Mandamentos”. O menino Sam fica extremamente impressionado com o filme, principalmente na cena do descarrilamento de um trem, com vagões e animais voando pelos ares.
Mitzi, a mãe, convence o menino a filmar o trem de brinquedo que ele ganha, e ele o faz de forma a recriar o acidente, e assim podendo ver a cena indefinidamente, produzida a partir do seu olhar sobre o acontecimento. O pai, Burt, um engenheiro elétrico ligado à produção e aperfeiçoamento de equipamentos de computação, quer que o filho siga outros caminhos que não sejam os ligados ao cinema. Mas o garoto, contaminado por sua paixão pela manipulação da realidade através das imagens que ele cria com sua câmera, em casa, com a ajuda das irmãs, não abandona seu desejo. Pelo contrário, mesmo sendo, já adolescente, e aí interpretado por Gabriel LaBelle, maltratado por colegas de escola por ser judeu, é sua forma de filmar e montar seus filmes que revela o ser humano que ele é, e como ele passa a ser respeitado.
A história de Spielberg, que ele conta com delicadeza, beleza, poesia, humor e emoção, entra no seio familiar, no casamento em ruínas de seus pais e nos sentimentos que ele carregaria por toda a vida. Não contamos aqui mais detalhes, porque seria cruel dar spoiler sobre essa parte fundamental do longa, extremamente criativa e emocionante.
“Os Fabelmans”, lindamente fotografado, com a indefectível trilha de John Williams, é um presente para os amantes do cinema. Muitos diretores têm revisitado a própria história, como faz Alejandro González Iñárritu, no seu atual “Bardo – Falsa Crônica de Algumas Verdades”, ou como fez recentemente Kenneth Branagh em “Belfast”, além de muitos outros.
Spielberg, que inventou o blockbuster quando lançou “Tubarão”, em 1977, ou quando nos entregou aventuras arrasadoras e deliciosas como os filmes das aventuras de Indiana Jones e do Parque dos Dinossauros, também nos deu sua visão tristemente poética da guerra em “O Império do Sol” e da brutalidade bélica em “O Resgate do Soldado Ryan”, este último um dos mais perfeitos do gênero.
Nas ficções científicas como “ET” ou nos dramas pungentes como “A Cor Púrpura” e mesmo na sua incursão pelos musicais, como o remake de “Amor, Sublime Amor”, Spielberg sempre fez de sua assinatura um sinônimo de qualidade. E não apenas isso: sua condição de judeu e as lembranças das discriminações sofridas na escola, são explicadas pelos filmes em que condena o antissemitismo de forma contundente, como no extraordinário “A Lista de Schindler”, que lhe deu o primeiro Oscar de direção.
Humilde, o cineasta revela, na sua delicada autobiografia, a reverência aos mestres que foram sua inspiração maior, como John Ford, que aparece representado por nada mais nada menos que o grande David Lynch.
“Os Fabelmans”, merecedor dos Globos de Ouro de melhor filme de drama e melhor diretor, tem no seu primoroso elenco uma força extra. Michelle Williams está sublime como a mãe de Sam, Mitzi, e Paul Dano, como Burt, o pai, tem uma das melhores interpretações de sua carreira. O tio Bennie, personagem de grande relevância na história, é defendido com competência por Seth Rogen.
Steven Spielberg fez o seu “Cinema Paradiso” com “Os Fabelmans”. Resta agradecer a ele por toda sua vasta e brilhante filmografia, e por nos oferecer essa linda declaração de amor ao cinema. E que venham muitos filmes dele no futuro, para engrandecer ainda mais essa já vitoriosa biografia. Por enquanto, todos ao cinema, para um mergulho – dentro da sala escura – à luminosa e encantadora experiência proporcionada por “Os Fabelmans”.
Os Fabelmans – (EUA, 2022 – Direção de Steven Spielberg) – em exibição nos cinemas.
Cotação: ***** ÓTIMO
Foto: Reprodução


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