por Roberson Augusto Marcomini
Há fenômenos sociais que passam despercebidos justamente por parecerem simples. A troca de figurinhas da Copa do Mundo é um deles. À primeira vista, trata-se apenas de colecionadores tentando completar um álbum. Contudo, basta permanecer algumas horas em uma praça para perceber que ali acontece algo muito maior: pessoas que talvez nunca se encontrassem passam o dia convivendo, conversando, cooperando e compartilhando experiências.
Nos últimos meses, praças brasileiras voltaram a ser ocupadas por centenas de pessoas. Crianças, adolescentes, adultos e idosos dividem o mesmo espaço durante horas. Muitos chegam às oito da manhã e permanecem até o final da tarde. Almoçam nas barracas instaladas ao redor da praça, retornam às mesas improvisadas e continuam procurando a próxima figurinha. Em tempos marcados pela pressa, esse simples gesto já merece atenção.
A praça, tão estudada por Hannah Arendt como espaço da vida pública, recupera temporariamente sua função original: ser um lugar de encontro entre diferentes. Não se trata apenas de circulação de pessoas, mas da construção de relações. O espaço urbano deixa de ser passagem e volta a ser convivência.
Um dos aspectos mais interessantes desse fenômeno é sua capacidade de romper fronteiras sociais. Na mesma mesa encontram-se homens e mulheres, crianças e idosos, pais e filhos. Não existe um gênero predominante nem uma faixa etária específica. Todos compartilham uma linguagem comum: o álbum.
As diferenças também aparecem em outras dimensões. Torcedores do Palmeiras conversam naturalmente com corintianos, são-paulinos, santistas, flamenguistas, gremistas, colorados, atleticanos e cruzeirenses. Em um país marcado por forte polarização política, não é raro observar bolsonaristas e petistas sentados lado a lado, preocupados não com disputas ideológicas, mas com uma pergunta bastante simples: “Você tem a figurinha 317?”
Esse pequeno gesto confirma uma das intuições de Georg Simmel: a sociedade não é construída apenas pelas grandes instituições, mas sobretudo pelas pequenas interações cotidianas. Uma simples troca de figurinhas produz vínculos capazes de suspender, ainda que momentaneamente, identidades que frequentemente dividem as pessoas.
Outro aspecto digno de nota é a solidariedade espontânea. Não existe apenas troca. Muitas vezes alguém percebe que outra pessoa está próxima de completar o álbum e oferece gratuitamente a figurinha necessária. Em poucos minutos, vários participantes começam a procurar entre seus montes de repetidas para ajudar quem está faltando apenas algumas.
Marcel Mauss já demonstrava, em seu clássico Ensaio sobre a Dádiva, que nem toda relação humana é orientada pelo interesse econômico. Dar, receber e retribuir constituem formas fundamentais de criação de vínculos sociais. Na praça, a figurinha perde seu valor comercial e adquire um valor simbólico muito maior: torna-se um instrumento de aproximação entre desconhecidos.
É igualmente interessante observar o papel desempenhado pelas famílias. Muitos pais e mães acompanham seus filhos durante todo o processo de negociação. Ensinam como trocar, orientam sobre o valor das figurinhas, estimulam o diálogo respeitoso e ajudam a evitar conflitos. Mais do que completar um álbum, transmitem formas de convivência social. Como lembra Pierre Bourdieu, grande parte da aprendizagem social acontece exatamente nesses processos cotidianos de socialização familiar.
Enquanto isso, a própria economia local reorganiza-se em torno desse movimento. As barracas de alimentação ampliam seu funcionamento durante o horário do almoço. A tradicional banca de jornais passa a vender água, refrigerantes, salgados, álbuns e pacotes de figurinhas. A senhora da pipoca permanece até o encerramento das trocas, acompanhando o fluxo constante de pessoas. O fenômeno revela, como observava Karl Polanyi, que a economia está profundamente inserida nas relações sociais e responde rapidamente às transformações da vida coletiva.
Talvez um dos elementos mais surpreendentes seja justamente aquilo que não acontece. Em uma época frequentemente descrita como dominada pelos smartphones, observa-se um número reduzido de pessoas distraídas em redes sociais. O celular aparece quase exclusivamente como ferramenta de consulta ao aplicativo que registra as figurinhas já conquistadas. A tecnologia não substitui o encontro; ela o auxilia. A conversa continua sendo presencial, os olhares se cruzam e as histórias são compartilhadas face a face. Byung-Chul Han alerta para o risco de uma sociedade cada vez mais isolada pelas telas. A praça das figurinhas parece oferecer, ainda que temporariamente, uma resposta concreta a esse diagnóstico.
Robert Putnam denominou de capital social o conjunto de relações de confiança, cooperação e reciprocidade que fortalecem uma comunidade. O fenômeno das trocas de figurinhas produz exatamente esse tipo de capital. Pessoas desconhecidas passam a confiar umas nas outras, compartilham informações, ajudam espontaneamente quem precisa e constroem um ambiente marcado pela cordialidade.
No fundo, talvez a figurinha seja apenas um pretexto. O verdadeiro objeto da troca não é o papel colorido estampado com jogadores da Copa do Mundo, mas a possibilidade de reconstruir algo que parecia escasso na sociedade contemporânea: o encontro humano. Em torno de uma mesa improvisada, desconhecidos tornam-se interlocutores, adversários políticos tornam-se parceiros de negociação, rivais do futebol compartilham risadas, pais e filhos dividem experiências e crianças aprendem, na prática, o significado da cooperação.
Quando o último álbum for completado, as mesas desaparecerão e as praças voltarão à rotina habitual. Permanecerá, entretanto, uma pergunta sociológica importante: se algumas centenas de figurinhas foram capazes de reunir pessoas tão diferentes durante semanas, talvez o que nossa sociedade mais procure não sejam objetos de coleção, mas oportunidades genuínas de convivência.
A praça das figurinhas recorda que o espaço público continua vivo. Basta que exista um motivo comum para que ele seja novamente ocupado por pessoas dispostas não apenas a trocar figurinhas, mas também histórias, experiências e humanidade.
Roberson Marcomini é graduado em Teologia (ITESP 2005) e licenciatura em Filosofia (UNIFAI 2009), Tecnólogo em Marketing (Anhanguera 2019). Mestre em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (UNICAMP 2017). Doutor em Sociologia na UFSCAR. Trabalha como professor de Filosofia, Sociologia e História. Professor de filosofia e ética e cidadania organizacional, e coordenador do ensino técnico do Centro Paula Souza (ETEC) do Colégio Trajano Camargo – Limeira. Também coordenador do Fórum Inter-religioso Municipal e professor do Colégio São José.
Os artigos assinados representam a opinião do(a) autor(a) e não o pensamento do DJ, que pode deles discordar

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