Desde a graduação em Filosofia no ano de 2005, Nicolau Maquiavel sempre ocupou um lugar central em meus interesses de estudo, alguns falavam que respirava Maquiavel na faculdade. Não apenas como um autor clássico da teoria política, mas como um pensador capaz de iluminar, com lucidez incômoda, os mecanismos reais do poder. Ao longo da docência, levei muitas de suas reflexões para a sala de aula, traduzindo conceitos como virtù, fortuna, fundação e conservação do poder em debates vivos, conectados às experiências concretas dos alunos. Hoje, como pesquisador, esse interesse não apenas permanece, como se intensifica diante dos acontecimentos políticos contemporâneos.
Maquiavel não escreveu para ensinar governantes a serem maus, ou seja, Maquiavel nunca foi maquiavélico, mas para explicar por que o poder nasce, se sustenta e, muitas vezes, apodrece. O Príncipe não é um manual de cinismo que me perdoe Antístenes fundador do Cinismo, mas uma análise rigorosa da instabilidade da autoridade política. Como ele próprio observa, “os homens esquecem mais facilmente a morte do pai do que a perda do patrimônio” (MAQUIAVEL, O Príncipe, cap. XVII), uma frase dura que revela a lógica profunda das lealdades políticas.
Quando se observa a Venezuela apenas pela lente ideológica, o cenário parece confuso e polarizado. Contudo quero aqui analisá-la pela lente do poder, o processo torna-se quase previsível. Hugo Chávez foi um fundador. Nicolás Maduro é um sucessor. E Maquiavel é claro ao alertar que um dos erros recorrentes da política é supor que herdar o cargo significa herdar a autoridade.
Maquiavel reconhece que, em determinados contextos, “é muito mais seguro ser temido do que amado, quando se tem de escolher” (MAQUIAVEL, O Príncipe, cap. XVII). No entanto, essa afirmação não deve ser lida como exaltação da tirania, mas como advertência: o medo pode sustentar o poder no curto prazo, mas cobra um preço elevado. O governante que passa a depender exclusivamente da coerção tende ao isolamento político e à erosão progressiva da legitimidade.
O problema se agrava quando o sucessor tenta repetir gestos sem compreender os símbolos que lhes davam sentido. Maquiavel observa que “os homens caminham quase sempre por caminhos já trilhados” (MAQUIAVEL, O Príncipe, cap. VI), mas adverte que a imitação, quando desprovida de leitura crítica do contexto, transforma-se em erro estratégico. Reproduzir formas não garante a preservação do conteúdo político que as sustentava.
Além disso, Maquiavel lembra que “quem se torna príncipe com o favor do povo deve conservar-lhe a amizade” (MAQUIAVEL, O Príncipe, cap. IX). Quando essa relação se rompe, a força passa a substituir o consenso, e o poder deixa de ser expressão de autoridade para se tornar mera administração do medo. O ódio, adverte o autor, pode surgir tanto de boas quanto de más ações, especialmente quando o governante perde a capacidade de mediação.
Este texto não é apenas sobre a Venezuela. É sobre qualquer líder que confunde força com poder, qualquer sucessor que acredita que símbolos herdados garantem legitimidade, qualquer governo que ignora a diferença entre fundar e conservar. Na lógica maquiaveliana, não compreender o próprio papel histórico é o primeiro passo para se tornar personagem da própria queda.
Ler Maquiavel continua sendo um exercício incômodo justamente porque ele não conforta ideologias, mas revela estruturas. Sua obra permanece atual porque não fala apenas de príncipes, mas de sistemas políticos inteiros que insistem em confundir controle com autoridade e permanência com legitimidade. Talvez seja por isso que Maquiavel siga sendo lido: porque, ao desnudar o poder, ele nos obriga a pensar antes de julgar.
Referência
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Tradução variada. Escrita em 1513, publicada em 1532.
Roberson Marcomini é graduado em Teologia (ITESP 2005) e licenciatura em Filosofia (UNIFAI 2009), Tecnólogo em Marketing (Anhanguera 2019). Mestre em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (UNICAMP 2017). Doutor em Sociologia na UFSCAR. Trabalha como professor de Filosofia, Sociologia e História. Professor de filosofia e ética e cidadania organizacional, e coordenador do ensino técnico do Centro Paula Souza (ETEC) do Colégio Trajano Camargo – Limeira. Também coordenador do Fórum Inter-religioso Municipal e professor do Colégio São José.
Os artigos assinados representam a opinião do(a) autor(a) e não o pensamento do DJ, que pode deles discordar


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