Justiça de Cordeirópolis autoriza pais afetivos em certidão; mãe morreu de Covid na véspera de sentença

Cordeirópolis, 26 de abril de 2021: “Julgo PROCEDENTE o pedido feito na inicial. Determino […] a inclusão do nome dos pais adotivos, quais sejam: Orlando Bettin, filho de Ângelo Bettin e Teresa Bettin; e Ezia Molina Bettin, filha de José Molina e Aparecida Zanetti, bem como o nome dos avós paternos e maternos, sem exclusão dos nomes da mãe e avós biológicos”. Esta foi a sentença do juiz Rayan Vasconcelos Bezerra ao pedido de Diego Francisco Umberto, que quis fazer constar também os nomes dos pais afetivos na certidão de nascimento.

Diego falou com a reportagem do DJ e contou que desde muito pequeno convive com o senhor Orlando e dona Ezia, pais de criação. “Minha mãe biológica [Margarida Francisca Umberto] trabalhava na casa deles como empregada doméstica e, praticamente assim que saí da maternidade, já fui para a casa deles porque ela [mãe biológica] não tinha condições de manter aos dois”, conta. Diego não chegou a conhecer o pai biológico.

Diego e a mãe biológica, Margarida Francisca Umberto

Diego ficou na casa da família de criação até que chegou um determinado momento em que a mãe biológica, Margarida Francisca Umberto, foi para outro trabalho, “mas foi tudo muito tranquilo entre todos para que eu permanecesse na casa do Orlando e Ezia. Nunca houve qualquer desentendimento quanto a isso. Foi algo mesmo traçado por Deus, e permaneci até hoje”.

A mãe biológica chegou a voltar a trabalhar na casa dos pais de criação de Diego. A convivência com todos sempre foi muito saudável, relatou. “Nunca houve discussão. Lembro de, na infância, frequentar a casa da minha mãe biológica. Ficava lá alguns dias e depois retornava à casa dos meus pais afetivos. Eles sempre combinavam”.

Orientação jurídica para adoção afetiva

A busca por documentos e orientação jurídica para chegar a esta sentença começou no final do ano passado, quando Diego, hoje com 30 anos, oficializou o pedido aos pais afetivos e aos irmãos se eles aceitavam constar nos documentos dele como família. Não que Diego e os pais afetivos não se sentissem como uma, mas, para ele, a formalização era uma forma de reconhecimento e de gratidão por tudo que os Bettin fizeram.

A iniciativa partiu de Diego, mas foi a noiva dele, Verena Eduarda Bueno Quintana, 29 anos, que teve um papel fundamental na busca pela oficialização ao procurar a advogada de Cordeirópolis, Patrícia Rodrigues, do escritório Bueno Rodrigues Advocacia.

Verena é noiva de Diego

Depois de confirmar que era possível, ele queria fazer uma surpresa para o dia de Natal, mas, antes, foi falar com a irmã mais velha, a Silmara, para saber o que ela achava. “Gostaram muito e ela falou para eu fazer isso mesmo porque era tudo o que a mãe [dona Ezia] sempre quis. Ela também quase chorou na hora que contei”.

Diego tem outros dois irmãos afetivos. Além de Silmara, têm Renato e Deize.

Revelação e pedido no dia de Natal

No dia 25 de dezembro de 2020, Diego conta que ficou muito nervoso, mas fez uma declaração e pediu a afetividade oficializada aos pais. “Falei que amava a todos. Ensaiei, mas na hora comecei a chorar antes de conseguir mesmo falar. Foi muito bonito. Agradeci a eles por ser quem eu sou hoje: tenho meu trabalho e consegui, junto com a Verena, comprar nossa casa e somos independentes”. Atualmente, o casal mora em Blumenau, Santa Catarina. “Tudo isso graças a educação que tive dos meus pais”.

Diego diz que sempre se sentiu verdadeiramente da família e que nunca foi excluído de nada. “Eu quis mesmo mostrar todo o meu amor, minha gratidão e o quanto me orgulho desta família”.

Família Bettin reunida no Natal

Dona Ezia

Dona Ezia morreu no último domingo, dia 25, véspera da sentença que autorizou o nome dela na certidão de Diego. Não houve tempo de dona Ezia ver as palavras do juiz, mas Diego conta que ela participou de toda preparação após o pedido feito no Natal. “Ela assinou com muito amor todos os documentos enviados ao juiz. Independentemente da sentença, eu consegui falar para ela tudo antes e mostrar o que eu queria fazer para homenagear, e a abracei muito. Eu tive tempo de dizer o quanto a amava. Então, ela já sabia que eu me senti realmente parte da família Bettin. Então, a gente só esperava a parte burocrática ser finalizada, mas o mais importante aconteceu antes”.

Verena, noiva de Diego, revelou ao DJ que, logo após a declaração no dia de Natal, dona Ezia perguntou a ela como tudo aconteceu. “Eu contei tudo e ela ficou muito emocionada e também disse que achava que morreria sem viver esse momento. Ela me disse que, naquele momento, estava muito feliz porque era o que ela sempre quis”.

Dona Ezia faleceu aos 70 anos. Senhor Orlando passa pelo momento de luto rodeado dos familiares.

A mãe biológica, dona Margarida, soube da atitude do filho e, de acordo com ele, a reação foi a melhor possível. “Ela entendeu e disse para eu ficar muito tranquilo porque eu realmente faço parte da família Bettin”. Como mostra a sentença, dona Margarida continua na certidão de Diego.

A sentença tem força de Mandado de Averbação, o que dispensa qualquer outra formalidade. Agora, os envolvidos devem apenas encaminhar ao cartório a determinação da Justiça para o cumprimento da sentença com a inclusão dos nomes.

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