por Farid Zaine
@farid.cultura
Seja como criador, produtor, roteirista ou diretor, tudo o que tem o toque de Ryan Murphy dá certo, falando-se em séries para o streaming.
A mão dele está em grandes sucessos como “Glee”, “American Horror Story”, “American Crime Story”, “The Potitician” e “Hollywood”.
Minha série favorita, contudo, é “Feud”, cuja primeira temporada, lançada em 2017, abordou a rixa histórica entre dois monstros sagrados do cinema, as divas Bette Davis e Joan Crawford.
Elas se odiavam, mas quando envelheceram, num lance inteligente de Crawford, elas se juntaram para filmar o clássico “O Que Terá Acontecido a baby Jane?”, terror dos anos 1960 que, para espanto dos incrédulos, transformou-se num enorme sucesso de público.
As filmagens de “Baby Jane” ocorreram sob o impacto da forte rivalidade entre as atrizes. Ryan Murphy captou o que havia de mais precioso nessa fase de Hollywood, com os restos do star system, e criou essa série fantástica, obrigatória para qualquer cinéfilo.
“Feud”, que significa “rixa”, teve nesse primeiro embate um lance de genialidade. Para continuar a série precisaria ser encontrada outra contenda igualmente ou mais apimentada ainda para garantir o interesse gerado pela ideia genial.
E foi da vida de Truman Capote que surgiu a segunda temporada, com Murphy na produção e Gus van Sant e Jennifer Lynch na direção, com o título “Feud: Capote vs The Swans”.
Aqui a rixa aparece após um longo período de amizade entre Capote e algumas das mais badaladas socialites de Nova York, entre os anos de 1960 e 1970.
Capote vinha do enorme sucesso alcançado por “A Sangue Frio”, que ele publicou em 1966, baseado em um crime hediondo acontecido numa pequena cidade do Kansas, nos EUA, com o assassinato brutal de uma família inteira.
Mergulhado no universo da alta sociedade de Nova York, Capote virou íntimo confidente de mulheres ricas, todas entregando a ele detalhes de sua vida privada, incluindo as traições dos maridos.
Capote usou seu aguçado poder de observação e sua prodigiosa memória para reconstruir, num livro chamado “Súplicas Atendidas”, todas as confidências de suas amigas.
Uma parte do livro é publicada numa revista e, inevitavelmente, a traição dele causa a revolta dessas mulheres que o idolatravam. O preço foi a lenta exclusão do badalado escritor da sociedade novaiorquina.
A série “Feud: Capote vs The Swans” tem esse nome porque Capote chamava as socialites com quem mantinha extrema proximidade de “cisnes”. Todos os episódios são sensacionais, com ótima reconstituição de época, figurinos extraordinários, fotografia e direção de arte perfeitas.
Destaque para o terceiro episódio, todo em preto e branco, recriando o famoso Baile de Máscaras idealizado por Capote; o escritor foi interpretado no cinema em “Capote” pelo soberbo Phylip Seymour Hoffman, vencedor do Oscar 2006 de Melhor Ator, e agora é vivido por Tom Hollander, que também deu conta de recriar essa estranha personagem real, com sua voz peculiar e seus maneirismos.
Quanto ao elenco feminino, é um time de estrelas de primeira grandeza: Naomi Watts (Cidade dos Sonhos) interpreta Barbara “Babe” Paley, Diane Lane (Infiel) é Slim Keith, Chloë Sevigny (We Are Who We Are) vive C.Z. Guest, Demi Moore (Ghost) interpreta Ann Woodward, Molly Ringwald (Clube dos Cinco) é Joanne Carson e Calista Flockhart (Ally McBeal) vive Lee Radziwill, irmã de Jackie O.
E ainda temos a participação mais do que especial de Jessica Lange como a mãe de Capote. Como querer briga mais saborosa e apimentada do que essa, entre um escritor que revela segredos de socialites que lhe entregam tudo e essas mulheres, quando descobrem a traição do confidente?
O que virá pela frente em “Feud” que supere a rivalidade entre Bette Davis e Joan Crawford e a “guerra” entre Truman Capote e seus cisnes? Aguardemos.
FEUD: Capote vs The Swans – série em 8 episódios, todos disponíveis no Star+
Cotação: ***** ÓTIMO
Foto: Divulgação

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