Empresas familiares entram em “zona de risco” no fim do ano

por Breno Garcia de Oliveira

No fim do ano, quando famílias empresárias se reúnem para celebrar conquistas e renovar laços, cresce de forma significativa o risco de que antigas tensões ressurjam e contaminem decisões estratégicas da companhia. Conflitos não verbalizados, mágoas acumuladas e disputas de poder podem ganhar novo fôlego em meio ao clima festivo, tornando decisões impulsivas mais prováveis e muitas vezes prejudiciais ao futuro do negócio. O que parece um momento de confraternização pode, sem governança adequada, se transformar em um campo minado de emoções mal resolvidas.

A realidade brasileira evidencia a urgência desse tema. Dados do IBGE e do Sebrae mostram que cerca de 90% das empresas do país têm origem familiar, respondendo por aproximadamente 65% do PIB e empregando 75% da força de trabalho. Apesar de sua relevância econômica, a longevidade dessas empresas é alarmantemente baixa. Segundo levantamento da Fenacon com base em dados da PwC, apenas 36% sobrevivem à segunda geração, o índice cai para 19% na terceira e apenas 7% chegam à quarta. Esses números revelam que a informalidade afetiva e societária não é apenas um risco emocional, mas uma ameaça concreta à continuidade do negócio e ao legado familiar.

Diante desse cenário, a criação de estruturas formais de governança familiar torna-se indispensável. Um conselho de família, separado do conselho corporativo, atua como espaço seguro para discutir valores, convivência e projeções profissionais. Essa distinção evita que decisões estratégicas sejam tomadas sob influência de ressentimentos ou sentimentos momentâneos, permitindo que o planejamento de longo prazo seja orientado por critérios racionais e objetivos.

Instrumentos como o Protocolo Familiar e o Acordo de Sócios precisam ser encarados não como burocracia, mas como mecanismos que asseguram transparência e previsibilidade. Estabelecer critérios claros de entrada e saída de herdeiros, políticas de distribuição de resultados, regras de sucessão e métricas de desempenho não apenas reduz o espaço para conflitos, mas também cria uma cultura de responsabilidade e meritocracia dentro da família. Imagine um Natal em que, ao invés de discussões sobre herança ou cargos, os familiares podem conversar sobre os planos da empresa com segurança e clareza, essa é a diferença que a governança institucionalizada faz.

Além disso, é essencial implementar métodos formais de solução de controvérsias, como mediação e arbitragem, e prever períodos de resfriamento antes de decisões críticas em épocas sensíveis. Esse tipo de salvaguarda evita que pressões afetivas induzam decisões precipitadas ou bloqueiem pautas estratégicas. Longe de indicar fragilidade, essas práticas demonstram maturidade, a família protege seu patrimônio sem precisar sufocar relações ou sentimentos.

Alguns críticos afirmam que formalizar a governança familiar pode reduzir o calor humano e tornar a gestão mais rígida. No entanto, esse ponto de vista tende a subestimar o verdadeiro custo da desorganização. Conflitos mal administrados geram perdas financeiras, desgaste de tempo e danos à reputação. Segundo a PwC Family Business Survey 2023, apenas 33% das empresas familiares brasileiras possuem estruturas formais de governança, o que deixa a grande maioria exposta a tensões que podem afetar simultaneamente o negócio e a harmonia familiar.

A governança familiar, portanto, não é antitética à afetividade, pelo contrário, reconhece e administra a dimensão emocional de forma estratégica. Instituir conselhos, protocolos e mecanismos estruturados de resolução de disputas cria uma blindagem afetiva, vínculos familiares são preservados, mas não permitem que emoções momentâneas determinem o futuro da empresa. Em última análise, proteger o negócio é também proteger a família e garantir que seu legado se perpetue por gerações.

Breno Garcia de Oliveira é advogado, sócio-fundador do escritório GDO | Advogados, especialista em Governança Corporativa, Direito Societário e Planejamento Sucessório. 

Os artigos assinados representam a opinião do(a) autor(a) e não o pensamento do DJ, que pode deles discordar

Deixe uma resposta

Your email address will not be published.