por Rafael Sereno
Lançado em 25 de janeiro de 2022, exatos três anos após o rompimento da barragem da Mina do Córrego do Feijão que matou 270 pessoas em Brumadinho (MG), no maior desastre humanitário do Brasil, o livro “Arrastados” (Editora Intrínseca), da jornalista Daniela Arbex, traz muito mais do que os bastidores do acidente. Ao longo das 328 páginas, fica claro que o protagonismo do livro está nas histórias humanas afetadas pelo acidente na Vale. Tanto de quem partiu como de quem ficou.
Para quem não lembra: o rastro de lama e rejeitos de minério percorreu mais de 300 quilômetros e arrastou edificações, veículos, árvores, animais e casas, além de vidas e sonhos humanos. Ao recontar a história de Brumadinho, a autora traz os efeitos da tragédia para bem perto dos leitores. É impossível ler a narrativa sem se emocionar com detalhes que só uma jornalista de extrema sensibilidade poderia fazer sem apelar para o sensacionalismo.
A parte jurídica está lá. Daniela conta como a tragédia era anunciada. A investigação do caso mostra que a barragem deu inúmeros sinais de alerta bem antes de seu rompimento, tudo tratado de forma interna, sem exposição ao público e às pessoas que trabalhavam nela ou nas imediações.
Algumas destas, porém, suspeitavam de algo anormal, como é o caso do auxiliar técnico operacional Olavo Henrique Coelho. Conforme a jornalista narrou no livro, ele foi chamado às pressas, em junho de 2018, quando uma perfuração na barragem “vazou” lama. Aos 63 anos e 35 deles na área, Olavo foi um dos que atuaram para conter o problema naquele dia.
Daniela conta que ele relatou ao filho, também funcionário da Vale, que a barragem estava “igual a uma bomba: vai estourar a qualquer hora”. No dia 25 de janeiro de 2019, Olavo estava no local e tinha descido para almoçar quando a barragem rompeu. Seu corpo foi encontrado só oito dias depois. Este relato é apenas um entre outros que revelam o drama deixado pelo rompimento da barragem da Vale.
O Ministério Público de Minas Gerais responsabilizou 16 pessoas, sendo 11 funcionários da Vale e cinco da Tüv Süd, consultoria alemã que assinou o laudo de estabilidade da estrutura. Todos viraram réus. Em outubro de 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) entendeu que o caso não é da competência estadual e remeteu todo o processo à Justiça Federal. Não há prazo algum para o julgamento do caso.
Isso fica para o futuro. Como registro do passado, a obra de Daniela Arbex mistura a delicadeza das histórias humanas que se entrelaçaram durante a tragédia, o trabalho dos bombeiros no resgate às vítimas e o difícil trabalho dos legistas para identificar as vítimas e poder entregar os corpos para uma despedida digna aos familiares. Nada foi fácil. Muitas das vítimas que chegavam ao Instituto Médico Legal (IML) não podiam ser identificadas pela cor da pele. É que a força da lama tirou a camada superficial da pele. As vítimas de Brumadinho, diz o livro, estavam todas iguais: a cor branca da região subcutânea da pele.
Com estilo que flui rápido, o texto de Daniela mostra que as faces humanas da tragédia de Brumadinho serão a memória viva da tragédia social e ambiental naquela região. Viva para não mais se repetir.
Título: Arrastados: Os bastidores do rompimento da barragem de Brumadinho, o maior desastre humanitário do Brasil
Autora: Daniela Arbex
Editora: Intrínseca
Páginas: 328
Gênero: Biografias e Histórias Reais
Ano de Lançamento: 2022
Rafael Sereno é jornalista, graduando em direito e escreveu esta resenha especialmente ao DJ

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