por Roberson Augusto Marcomini
Nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas pelas imagens da nova adaptação de A Odisseia, dirigida por Christopher Nolan. Entre trailers, cartazes e fotografias promocionais, uma delas chamou especialmente minha atenção: Agamêmnon vestindo uma imponente armadura de guerra. A escolha é compreensível. Poucos personagens da mitologia grega representam tão bem o poder militar, a grandiosidade e o esplendor da vitória.
Mas essa imagem me fez pensar. O filme chama-se A Odisseia. Seu protagonista não é Agamêmnon, mas Odisseu. Talvez essa aparente contradição revele muito sobre o nosso tempo. Continuamos fascinados pelo brilho das armaduras, quando a verdadeira grandeza da história está justamente no homem que retorna sem elas.
No último dia 18 de julho, fui ao cinema com minha esposa para assistir ao filme. Confesso que não consegui enxergá-lo apenas como entretenimento. Durante toda a sessão, as imagens despertavam lembranças da obra de Homero, enquanto minha memória voltava, inevitavelmente, à adaptação dirigida por Andrei Konchalovsky, lançada em 1997, que durante muitos anos foi minha principal referência cinematográfica da epopeia.
Quando estudante de Filosofia, li A Odisseia na tradução de Frederico Lourenço. Após assistir ao filme, quis descobrir se as reflexões que ele despertava pertenciam apenas ao olhar de Christopher Nolan ou se já estavam presentes no poema composto por Homero há quase três mil anos. A resposta surgiu logo no primeiro verso. Homero não pede à Musa que cante o mais forte dos guerreiros, nem o mais poderoso dos reis. Pede que cante “o homem” o homem de muitos caminhos, de muitas experiências, de muitas provações. Desde o início, o centro da narrativa não é a glória da guerra, mas a complexidade da condição humana. Essa escolha muda completamente a forma como compreendemos a narrativa. Enquanto a Ilíada exalta a glória conquistada nos campos de batalha, A Odisseia celebra outra espécie de heroísmo. Odisseu vence menos pela força do que pela inteligência. Sua maior arma nunca foi a espada, mas a capacidade de pensar, adaptar-se e aprender com cada desafio. A verdadeira viagem não acontece apenas pelos mares do Mediterrâneo; acontece dentro do próprio personagem.
Foi justamente esse aspecto que mais me chamou a atenção na leitura de Homero após assistir ao filme. Christopher Nolan parece compreender que a grandeza de Odisseu não está apenas em enfrentar ciclopes, sereias ou tempestades. Ela aparece nos momentos silenciosos da narrativa.
Está em Argos, o velho cão que espera vinte anos pelo retorno de seu dono e o reconhece antes de qualquer outra pessoa. Está em Euricleia, que identifica Odisseu ao tocar a cicatriz recebida na juventude durante a caça de um javali. Está em Penélope, que não se deixa convencer pela aparência e reconhece o marido ao mencionar o segredo da cama construída em torno de uma oliveira. Homero parece ensinar que nossa identidade não está na força física nem na fama, mas na memória, nas marcas que carregamos e nos vínculos que construímos ao longo da vida.
Outro aspecto profundamente atual é a xenia, a hospitalidade. Para os gregos, acolher o estrangeiro era um dever sagrado. Polifemo não representa apenas a brutalidade de um gigante, mas a negação da própria civilização ao romper esse princípio. Em um mundo cada vez mais marcado pela intolerância e pela dificuldade de reconhecer o outro, é impressionante perceber como Homero continua dialogando com questões do presente.
Talvez seja justamente por isso que a imagem de Agamêmnon tenha dominado tantas publicações nas redes sociais. Armaduras impressionam. Espadas chamam atenção. Guerreiros despertam admiração imediata. No entanto, Homero nunca escreveu um poema sobre o brilho do bronze. Escreveu sobre um homem que erra, sofre, resiste às tentações, aprende com suas perdas e descobre que nenhuma vitória vale a pena se custar a própria humanidade.
Talvez seja essa a razão pela qual A Odisseia continua emocionando leitores e espectadores depois de quase três mil anos. A viagem de Odisseu nunca foi apenas o retorno de Troia para Ítaca. É também a nossa.
Toda vez que entramos em Homero, iniciamos uma travessia. Acompanhamos um homem que parte para a guerra, enfrenta monstros, deuses, naufrágios e tentações, e finalmente retorna transformado.
E talvez esse seja o maior triunfo de Homero. Assim como Odisseu, também nós nunca saímos de sua obra da mesma maneira que entramos. Os grandes clássicos têm esse poder: não apenas contam uma história; eles nos transformam durante o caminho.
Roberson Marcomini é graduado em Teologia (ITESP 2005) e licenciatura em Filosofia (UNIFAI 2009), Tecnólogo em Marketing (Anhanguera 2019). Mestre em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (UNICAMP 2017). Doutor em Sociologia na UFSCAR. Trabalha como professor de Filosofia, Sociologia e História. Professor de filosofia e ética e cidadania organizacional, e coordenador do ensino técnico do Centro Paula Souza (ETEC) do Colégio Trajano Camargo – Limeira. Também coordenador do Fórum Inter-religioso Municipal e professor do Colégio São José.
Os artigos assinados representam a opinião do(a) autor(a) e não o pensamento do DJ, que pode deles discordar

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