A cultura sexista no Brasil

por João Geraldo Lopes Gonçalves

Na semana passada, o Brasil mais uma vez foi manchete de um escândalo, protagonizado por um político. O deputado estadual Arthur do Val, mais conhecido como Mamãe Falei, teve seu nome e imagem ligados a áudios em que o parlamentar comete sexismo.

Em uma viagem a Ucrânia, a qual até o momento pouco se sabe o que o deputado foi fazer naquela zona de guerra, comentários feitos pelo mesmo sobre as mulheres ucranianas deixaram a todos em cabelo em pé. Declarações como “as ucranianas são fáceis [de fazer sexo] porque são pobres” ou “não peguei ninguém ainda, mas já tem pelo menos duas aqui no radar”, nos colocam um problema que não é caso isolado, muito menos um deslize de poucos.

No Brasil, se pratica a cultura do sexismo, onde o macho alfa se coloca acima das mulheres, se impõe apenas pelo fato de ser homem, com força física e suposta inteligência e esperteza. O sexo define espaços na sociedade, seja nos locais de trabalho, seja na família.

A ideia de que às mulheres está reservado o papel de cama, mesa e banho, cada vez mais é desnudada no país em que um presidente da República publicamente ataca mulheres e comete sexismo o tempo todo.

No livro “Escravidão”, do jornalista Laurentino Gomes, a cultura do sexismo veio de caravelas ao Brasil, mas se consolida com o cativeiro da população negra.

No início da mercantilização de seres humanos da África para as Américas, a prioridade de traficantes e governo era mão de obra masculina e jovem para o trabalho nos engenhos de açúcar e mais tarde no garimpo do ouro e da prata. Mas, como afirmou um vice-governador geral no século XVIII, o branco não conseguia viver no Brasil sem o escravo negro, que não se limitava mais as fazendas de cana ou campos de garimpo.

Os africanos eram parte integrante das casas grandes em todas as funções da sociedade. O senhor de escravos e sua família nada faziam, tudo era realizado pelos cativos.

Com isto, cresce a necessidade de mão de obra feminina, não só para os afazeres domésticos, mas para práticas sexuais. A violência e o desrespeito que isto gerou foi criando no Brasil estereótipos de que lugar de mulher é na cozinha, no tanque e na cama, em especial as pobres.

Por isto, o discurso do “Mamãe Falei” não é um deslize ou um erro, como o infeliz argumentou dizendo que “não sou santo, sou homem, sou jovem”.

A “mea culpa” esfarrapada saiu pior que a encomenda, reforçando que o sexismo é uma cultura, capitaneada pelo atual governo federal. Só para ficar nos investimentos do Estado no combate a violência à mulher e as políticas públicas de gênero e igualdade, o orçamento de Bolsonaro para este ano é o menor já destinado dos últimos quatro anos.

E mais: o próprio presidente dá o exemplo de seu sexismo e misoginia. Já ameaçou jornalistas, ofendeu deputadas, e por aí vai. E esta semana, com a maior cara de pau, disse que as declarações do deputado eram asquerosas e no dia 8, Dia Internacional das Mulheres, fala que seu governo tudo faz pelas mulheres.

Mentira das grossas, haja visto o orçamento deste ano, que vai destinar a cada estado da federação um pouco mais de R$ 300 mil para o combate à violência.

Enquanto isto, a imprensa noticiou, no mesmo dia 8, dados tristes e alarmantes: o Brasil fechou 2021 com uma mulher estuprada a cada dez minutos e 4 casos de feminicídio por dia, sendo que uma mulher morre a cada sete horas.

A cultura do sexismo não é apenas uma questão histórica a qual não conseguimos resolver. O sexismo está impregnado em leis e praticas diárias. Listamos abaixo algumas

Licenças: Embora a licença-maternidade seja uma conquista importante, ela é diferenciada da licença-paternidade. Se o objetivo é que o País fique no primeiro período do nascimento cuidando da criança, é incoerente que a mulher tenha 180 dias e o homem apenas cinco. A responsabilidade por cuidar e educar a criança é dos dois e não apenas da mulher;

Coisa de Mulher: Ainda escutamos diariamente a conversa de alguns homens de que determinadas funções no mundo é coisa de mulher. Recentemente, um dos filhos de Bolsonaro se referiu a um acidente com uma linha do metrô em São Paulo, culpando a engenharia da obra que foi feita por mulheres e defendendo abertamente que não é coisa de mulher;

Mercado de Trabalho: Aqui então a discrepância é enorme. Estima-se que uma mulher receba 30% de salários a menos que os homens exercendo a mesma função. Cargos de chefia, na maioria das vezes, são destinados aos homens, não considerando mérito e competência;

Só as mulheres cuidam das crianças: Um caso de violência e feminicídio, que acompanhamos certa vez, ocorria porque a mulher com tripla jornada de trabalho “deixou de cuidar” das crianças, de cumprir seu papel. Ao homem cabe sustentar a família e “comparecer” no coito;

Garanhão e puta: É comum fazer esta diferença quando casos de estupro, importunação sexual acontecem. Inclusive juízes e autoridades políticas sentenciaram mulheres utilizando do estereótipo “aconteceu porque ela não se deu respeito”, ou seja, ela é puta, o homem está na sua função, o garanhão;

Banheiros binários: Recentemente, dois vereadores da Câmara Municipal de Limeira apresentaram projeto de lei para proibir banheiros unissex. O argumento sem sentido: não é familiar;

Publicidade: Podem reparar que comercial de cerveja e, antigamente, o de cigarros, precisa ter uma mulher seminua no roteiro ou programas de auditório, também na mesma linha;

Pois bem, a cultura sexista remonta de nosso passado escravista e de nosso presente que, mesmo com avanços, ainda persistem as práticas que formam consciências de desrespeito às mulheres e que leva a morte.

Como o tema é oportuno e profundo, semana que vem faremos um esforço par apresentar soluções de combate ao sexismo.

João Geraldo Lopes Gonçalves é escritor e consultor político e cultural

Os artigos assinados representam a opinião do(a) autor(a) e não o pensamento do DJ, que pode deles discordar

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